'Existe corrupção na Câmara com esquema de exame e remédio’, diz Kelps Lima

'Existe corrupção na Câmara com esquema de exame e remédio’, diz Kelps Lima

O candidato a prefeito de Natal pelo Solidariedade, Kelps Lima, aponta que na Câmara Municipal há o que ele descreve como esquema para que vereadores tenham cotas de remédios, exames e até caixão por intermédio dos quais se criam vínculos de dependência com pessoas que procuram esses serviços. Segundo Kelps Lima, é com a garantia dessa estrutura que, atualmentes é formada maioria na Câmara.

“Isso é corrupção. Isso tem nome, é corrupção. Na hora que você pega algo que é um bem público e entrega na mão de um particular para ele vender como se fosse dele, é corrupção. Acaba no primeiro dia [se for eleito e assumir a prefeitura]. Não haverá”, afirmou o candidato, ao conceder entrevista à Jovem Pan News Natal, na manhã da terça-feira (3).

Confira entrevista com o candidato Kelps Lima:

Em seu plano de governo você fala dezesseis vezes a palavra transparência e dezesseis vezes a palavra eficiência. Como implementar essa mudança que além de conceitual também é estrutural, na gestão pública?

“Natal voltou a ter eleição para prefeito em 1985, de lá pra cá, Natal só elegeu um modelo de candidatos a prefeitos, famílias políticas tradicionais. Todos no meio do mandato colocaram parente para ser candidato a deputado, todos em algum momento responderam por processo de improbidade à corrupção. O modo de fazer campanha e o modo de gerir transformou nossa cidade na capital com a pior educação do Brasil, segundo o IDEB, com uma das frotas de ônibus mais velhas do Nordeste e com a tarifa mais cara. Uma das cidades mais violentas do Brasil e é uma cidade que temos o selo da vergonha de ter natalense dormindo em calçada para tirar ficha para o posto de saúde. Isso é fruto de um modelo. Isso não é nem castigo de Deus, nem obra do divino espírito santo. Ou a gente opta por um novo modelo, ou nós temos que conviver com a conveniência de termos natalenses passando por situações de extrema humilhação no uso dos serviços público. No exercício do meu mandato como deputado isso é feito. Se qualquer cidadão for na Assembleia agora tem um corredor com vinte e quatro portas, se você abrir as vinte e três e deixar a minha por último você irá ver que é o único gabinete que não tem paredes, que tem ponto eletrônico para o servidores. Tenho um aplicativo para as pessoas acompanharem meu voto nos projetos… então transparência ela é fundamental, e essa quebra de paradigmas com a transparência só vai se dar quando Natal eleger um novo modelo de fazer política, modelo que evoluiu, e que a gente trabalha nele todo dia. Nessa eleição, por exemplo, a gente optou por não usar o Fundo Partidário e por não fazer acordos escusos para ter tempo de TV. Isso nos dá a liberdade de fazer as mudanças para tirar Natal desse caos. E é esse o modelo que a gente tá apresentando para a cidade onde eu nasci, e para a cidade que eu gosto de viver”.

Candidato, o senhor foi secretario de mobilidade urbana da cidade do Natal na gestão da ex-prefeita Micarla de Souza e na época, existia uma liminar que não permitia a abertura da licitação do sistema de transportes coletivos da capital. Essa licitação ficou fechada até 2010 quando o senhor já não estava mais na secretaria. Mas em 2016, uma lei foi para a Câmara Municipal, que previa um sistema de transporte de qualidade para a cidade, com ar-condicionado, motor traseiro, plataforma rebaixada… seriam ônibus modernos, mas essa licitação deu deserta na época que foi lançada pois a tarifa não cobria a qualidade do transporte. Eleito prefeito da capital, como o senhor vai encontrar esse equilíbrio, diante da experiência que o senhor já teve como secretario de mobilidade urbana, tarifa justa com transporte de qualidade?

Natal nunca elegeu um prefeito que andou de ônibus. Todos os prefeitos eleitos de Natal, todos, são de uma elite política que nunca usou posto de saúde, nunca estudou em uma escola pública municipal e nunca andou de ônibus. Eles não têm a menor noção do sacrifício que o natalense faz todo dia para andar nesses ônibus velhos com a tarifa cara. A lei aprovada não permite ter licitação. E eu não tenho nenhuma dúvida que os prefeitos não tem interesse em fazer a licitação pra ter eternamente as empresas de ônibus manipulando-as da forma que querem. Essa lei é um equívoco. Nenhum prefeito consegue fazer a licitação, ela tem que ser revogada no primeiro mês de mandato. Eu eleito, eu revogo no primeiro mês de mandato, e a gente faz a licitação no primeiro ano. Pois eu não tenho ‘rabo preso’ com empresa de ônibus e nem faço demagogia com o transporte público. Eu fui secretario um ano, nesse ano que fui secretario foi feita a maior renovação de frota da história de Natal, 180 ônibus novos. E a gente foi premiado como melhor secretario de trânsito e transporte do Brasil. Meu trabalho de conclusão de pós-graduação e de mestrado foram na área de transportes e eu andei de ônibus metade da minha vida. Eu sei exatamente o que passa quem fica uma hora na parada de ônibus, o que é um freio de arrumação, por que eu vivi as duas pontas do processo. Chega a ser cruel a forma que o natalense que anda de ônibus é tratado. Eu não tenho nenhuma dúvida que a gente faz a licitação no primeiro ano, agora sem demagogia. É possível ter uma frota nova, confortável, mas não é possível ter todas as demagogias que foram colocadas na lei.

O senhor achou então que a lei foi exagerada?

A lei foi completamente demagógica. E a prefeitura que sabia disso, preferiu assim porque interessa a gestão, a atual gestão e a esse modelo de fazer política, não ter licitação. Você não acha estranho Natal ser uma das únicas capitais do Brasil que não teve licitação? Será que é só fruto de incompetência? Eu não acredito.

Candidato, o que você acha da proposta do seu opositor de transporte com tarifa zero?

Não é viável. Esse é o tipo de proposta que é perigosa, pois ela não se concretiza e ilude o eleitor. Não há como se pagar essa tarifa, essa conta simplesmente não fecha. É uma proposta bem intencionada, como na campanha de prefeito passado que tinha um candidato que dizia que ia estatizar as empresas de ônibus, quando você pede detalhamentos disso é impossível. Infelizmente é impossível.

Candidato politicamente o senhor prega uma independência, inclusive não fez coligações para essa eleição e disse que não vai fazer acordos espúrios. Como seria a governabilidade, o senhor sendo parlamentar sabe da importância de uma Câmara Municipal, de um parlamento, como seria essa formação de sua bancada de apoio na Câmara Municipal?

Eu estou no terceiro mandato de deputado. Nos três mandatos eu fui líder da bancada de oposição e presidi comissões muitos importantes na Assembleia. Eu sei dialogar, eu sei conversar e construir consensos. E sei fazer isso sem usar os esquemas tradicionais. Nunca indiquei cargo em governo nenhum, nem prefeitura nem governo, nunca nenhum parente meu assumiu cargos comissionados e eu sou de uma família muito humilde daqui de Natal, muito simples, minha mãe dirige transporte escolar. Então o modelo que a gente defende deixa claro que é possível fazer política grande, é possível fazer política relevante não tendo os mecanismos tradicionais. Na minha primeira eleição eu prometia isso, eu sabia que era difícil as pessoas acreditarem, hoje a gente já entregou isso. Temos a segunda maior bancada da Assembleia Legislativa sem ocupar nenhum cargo na mesa por opção. Para podermos ser independente. Então, não vejo problema em construir uma maioria na Câmara, com diálogo, agora sem vereador ter cota de remédio, cota de exame, cota de caixão… como tem hoje na Câmara para escravizar o cidadão com dinheiro público, com o dinheiro que ele paga imposto, e ele só tem acesso a esse serviço se ele entrar no esquema que o prefeito montou com os vereadores.

Então o senhor pretende acabar com esses “benefícios”?

Benefícios não, isso é corrupção. Isso tem nome, é corrupção. Na hora que você pega algo que é um bem público e entrega na mão de um particular pra ele vender como se fosse dele, é corrupção. Acaba no primeiro dia. Não haverá.

Então existe hoje corrupção na Câmara Municipal?

Existe corrupção de esquema de exame, de remédio, de caixão… na Câmara Municipal com o prefeito, a minha dúvida disso é nenhuma.

Candidato com relação ao combate à covid, a gente tá em um momento de pandemia, o senhor é um crítico ferrenho com a forma com que a Prefeitura do Natal tem se portado nesse combate. Como o senhor faria e como fará, pois provavelmente a pandemia infelizmente ainda estará sendo uma realidade ano que vem… qual seria a sua postura nesse momento e qual será a sua postura caso seja eleito?

Minha postura será de extrema responsabilidade como tem que ser com uma doença tão grave como o covid. Mas afastando completamente o uso político da doença.

Você acredita que houve esse uso?

Eu vou dar um exemplo básico. As aulas voltaram nas escolas particulares e não voltaram nas escolas públicas. Qual a justificativa? Foi dado que as escolas públicas não teriam condição de seguir o protocolo de segurança…Ou seja, o prefeito assumiu que ele não tem competência pra botar uma escola pública para funcionar enquanto uma escola particular pode. Quem tem filho em creche em Natal o dinheiro vem do governo federal para pagar a merenda. O prefeito em uma ação acertada, foi até a justiça pedir autorização para transformar a merenda em cesta básica para as famílias, a justiça federal deu, ele só entregou no primeiro mês. Os outros meses não entregou. Sabe o que vai acontecer? Semana que vem, véspera da campanha, começa distribuição de cesta básica em Natal. Isso é inaceitável, vá nos bairros de periferia em Natal, como eu vou. Agora, isso não é dito na imprensa. A imprensa tem sido absolutamente conivente com tudo isso que tem acontecido de manipulação de covid e manipulação da eleição por parte da prefeitura de Natal. A gente tá vivendo uma eleição como nunca teve em Natal do ponto de vista do coronelismo, da dominação da imprensa via verba publicitária e falta de transparência no gasto público, com zero crítica da imprensa que quase na totalidade é conivente e sócia dessa manipulação.

Diante dessa crítica, qual seu plano de retomada para a volta das aulas a partir de 1º de janeiro caso seja eleito?

As aulas voltam pros pais que optarem para a criança ir pra aula, tem que voltar. Os que não optarem, tem que ser construído um mecanismo de aula online. Tem áreas que não tem internet, tem crianças que não tem acesso, nós estamos há oito meses do covid, não é possível que não tenha sido construído uma estrutura para uma escola voltar. Pra uma escola voltar. Você imagina a vida desses pais e dessas mães? Que saem para trabalhar e agora de repente você não pode mais, você não tem babá, você não tem empregada doméstica, você transforma a vida dessa pessoa num caos. Então, educação é prioridade. Eu sou produto da educação. Eu sou o primeiro a ter diploma universitário de todas as gerações da minha família. E isso alterou absolutamente a minha condição social, de vida. A educação foi o que alterou a condição da minha família.

A escola pública funciona, né?

Não é nem essa a questão, você precisa dar oportunidade para essas crianças. Hoje nós estamos a pior educação do Brasil, de todas as capitais. Nós não alcançamos as metas do Ideb que são metas baixas… então a gente não vai alterar a cidade. Não tem mercado consumidor, não tem jovens empreendedores, você não tem mecanismos de movimento da sociedade que paga a conta, a conta maior é pra quem é mais pobre, mas a sociedade toda paga a conta.

Deputado, queria que o senhor falasse um pouco sobre como foi sua atuação como deputado em prol de Natal. Se houve liberação de emendas…

Vária emendas, inclusive liberadas esse ano para o covid. Emendas de eventos culturais que a gente fez durante todo o mandato, esse ano a gente focou no covid, claro, liberamos emendas para o Hospital Municipal, como é uma ajuda pontual, quase simbólica pois os valores são muito baixos, mas é claro que a gente se preocupou com nossa cidade e destinamos emendas sim.

Falando sobre a questão da covid, hoje o custo de um paciente em uma UTI segundo dados do Ministério da Saúde é de três mil reais por dia. Terminada essa pandemia, o que o senhor pretende fazer para manter os vinte leitos existentes hoje no Hospital de Campanha funcionando em outros hospitais da rede pública, como é o caso do Hospital dos Pescadores e do Hospital Municipal?

A gente vai tentar manter, claro, todas as UTIS funcionando, mas a gente vai tentar criar mecanismos para que os pacientes não precisem chegar na UTI. Se terminar o programa hoje e você for visitar o Hospital dos Pescadores, como eu já visitei, você vai ver que não tem insumos básicos para um primeiro atendimento. E muita gente termina na UTI pois não tem o atendimento básico. Se o cidadão que está ouvindo tiver a experiência de ir ao Hospital de Campanha, de ir ao Hospital Municipal, de ir ao Hospital dos Pescadores como você acabou de citar, é um caos. Só sabe o que é sofrimento e humilhação quem precisa de um hospital público municipal. É só ir lá. A propaganda do prefeito diz outra coisa. Experimente ir lá… é terrível. E muitos terminam na UTI, a gente quer evitar que as pessoas cheguem na UTI. E pra isso é preciso ter um bom atendimento básico, desde a UBS até a UPA e pequenas unidades como o Hospital dos Pescadores.

Candidato chegamos ao minuto final, você tem um minuto para suas considerações finais.

Quero agradecer ao natalense pela oportunidade de dar relevância para quem tá fazendo política séria e honesta na cidade. A nossa luta é estabelecer um debate diferente da política do estado, independente se o cidadão vai votar em mim ou não, eu acho que é importante o cidadão fazer uma reflexão se vale a pena votar em campanha cara, se vale a pena votar em quem tem histórico de corrupção e bens bloqueados como o prefeito, e se a vale a pena votar nesse modelo que produziu essa cidade. Eu sonho com um modelo diferente, independente de ser prefeito ou não porque eu sou de Natal. Então eu quero viver numa cidade com um ambiente diferente do que a gente vive hoje. A gente apresenta a candidatura, como apresentou a passada, nesse sentido de ter um novo modelo. E torce, claro, estamos muito confiantes com a ida para o segundo turno e com a vitória das eleições desse ano.

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