Gráfica lança 2ª edição de álbum com santinhos políticos em cidade do Seridó potiguar

Gráfica lança 2ª edição de álbum com santinhos políticos em cidade do Seridó potiguar

Anthony Medeiros – Repórter

Faltava pouco para as eleições de 2016 e ninguém em Currais Novos, município com cerca de 50 mil habitantes do Seridó potiguar, tinha notícias de onde podia encontrar o santinho da candidata Francisca Francione Marques de Araújo, conhecida como Bia. Naquele pleito ela não conseguiu se eleger como vereadora, mas também não teve problemas com a Justiça Eleitoral por ter decidido não produzir seu panfleto de divulgação, afinal estava no seu direito. No entanto, para um grupo de colecionadores do município, aquela situação fazia bastante diferença. Era justamente o santinho de Bia a “figurinha premiada” da 1ª edição do álbum com os candidatos ao executivo/legislativo curraisnovense, produzido por uma gráfica local. O álbum fez tanto sucesso que este ano está de volta, com mais figurinhas, digo, santinhos, para a alegria dos colecionadores, que desde o início do ano aguardavam pelo material.

O episódio envolvendo Bia foi solucionado de maneira criativa e será mencionado ao final dessa reportagem. Já em relação a atual edição, a principal mudança foi mesmo no volume, explicado pelo aumento no quantitativo de candidatos à câmara. O número de postulantes a uma das 13 cadeiras do município saltou de 140 para 202, número 44,2% maior no comparativo entre as duas eleições, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já em relação à corrida pela prefeitura, são quatro candidatos (entre eles o atual prefeito) que também foram prestigiados no álbum. Com tais ajustes, a nova edição chega com 210 lacunas, uma para cada vereador (202) e duas para cada chapa que concorre ao executivo (quatro figurinhas individuais dos prefeitos e mais quatro de prefeitos e vices posados).

Apenas no primeiro dia, 20 edições foram vendidas ao preço que varia entre R$ 25 (para o layout preto e branco) e R$ 40 (layout colorido). Já os santinhos não são comercializados. “Só vendemos em caso do candidato não ter mandado fazer o seu panfletinho”, explica Antônia Fernandes, de 53 anos, proprietária da gráfica. Aí que está o fio da meada. Não adianta comprar apenas o álbum, é preciso garimpar o conteúdo dele das mais diversas maneiras, como os álbuns consagrados das mais variadas tipologias aos quais estamos acostumados. Uma das formas mais práticas é vista na própria gráfica, onde estão dispostos vários dos santinhos deixados pelos próprios partidos. A prática, direta ou indiretamente, é vista como uma forma de divulgar os candidatos. Outra forma, esta mais tradicional, é a troca de figurinhas. Quem tem santinho repetido pode trocar com outro colecionador na mesma situação e todos saem ganhando.

A procura do público começou bem antes do final de setembro, quando a campanha política teve início, tornando permitida a distribuição de santinhos. Com o álbum “nas bancas”, a previsão da gráfica neste ano é vender pouco mais de 200 álbuns, 33% a mais do que em 2016. A produção gráfica é de responsabilidade do designer Jordan Torres, 26, um dos sócios da empresa e colecionador de álbuns de figurinhas até os dias atuais, como os da Copa do Mundo, por exemplo. A expectativa é que a busca pelos santinhos ganhe novos contornos na próxima semana, quanto a maioria dos candidatos já terá produzido seus materiais gráficos, inclusive os santinhos. A ocasião, além do frisson criado, dá um novo tom à campanha política, sempre recheada de muita rivalidade, afirma Antônia Fernandes.

Figurinhas premiadas

Já mencionada nessa reportagem, a saga em busca do santinho de Bia teve um desfecho criativo. Os colecionadores, inconformados por estarem tão perto de completar o álbum e só não concluírem por conta de uma unidade não produzida, procuraram a mulher com uma missão definida: pedir sua autorização para que fosse possível confeccionar, por conta própria, uma unidade para cada um dos que se juntaram na odisseia em busca de uma figurinha. Pronto. O acordo estava feito. O panfleto, improvisado, foi impresso e cada figurinha distribuída entre os colecionadores.

“Eu não lembro nem quem foi falar com Bia, mas sei que pediram a ela bem direitinho para que pudéssemos fazer a figurinha. Ela concordou e o santinho foi feito”, afirma Samyr David, 39, técnico de informática que além de colecionar colaborou com a produção da atual edição do álbum, tabulando as informações dos candidatos (inclusive dividindo-os por coligações).

Cuidadosamente, o santinho da candidata foi desenvolvido seguindo o padrão gráfico dos candidatos do seu partido, o PSB. A tiragem, no entanto, era limitada e atendeu apenas aos que estavam envolvidos na frenética busca. Os colecionadores dividiram o valor irrisório da impressão e enfim completaram seus álbuns. Bia sequer se candidatou para o atual pleito, mas teve um significado diferenciado para os apostadores, que são votantes em Currais Novos.

Outra boa história do último álbum envolveu o candidato a vereador Ivan Félix. Com a candidatura anunciada, o partido bancou um lote de santinhos com a foto do postulante ao lado do candidato à prefeito e seu vice da coligação. No entanto, pouco tempo após produzido o material, o candidato desistiu da candidatura e os panfletos deixaram de circular às ruas, se tornando artigo raro nas ruas do município seridoense. “Eu só achei um santinho dele no início da campanha, coloquei logo no meu primeiro álbum. Não achei um segundo santinho dele de jeito nenhum. Meu segundo álbum só ficou incompleto por causa de Ivan Félix”, afirma, de forma bem-humorada, o professor Miller Cavalcanti, 30.

Os colecionadores

Em um álbum tão específico, entender o motivo de colecionadores mobilizarem tempo e dinheiro para completar a coleção é fundamental. De acordo com a Tag Criativa, gráfica que organiza o álbum, o público alvo é o mais diverso possível. Em suma, são homens e mulheres que já possuem outros tipos de coleção, ou aqueles que não colecionam outros itens, mas que se interessam pela política local. “Todos os meus álbuns eu tenho guardado até hoje. Sobre esse, em específico, eu acho bem interessante. Você abre o álbum completo, vê todos os candidatos, tem a noção prática de observar o pleito. É o maior barato”, comenta o técnico de informática Samyr David.

O professor Miller Cavalcanti foi um dos que passou na gráfica nas primeiras horas de venda e já adquiriu duas unidades, uma colorida e uma preto e branco. Ele estima preencher ambas edições dentro de três semanas e aguarda a chegada de mais santinhos na próxima semana. Apesar de colecionar álbuns de figurinha desde a infância, ele ainda afirma se espantar com as propostas pelos santinhos, distribuido gratuitamente, que já viu por parte de outros colecionadores. “É muito legal para ver alguns figuras da cidade que acabaram se candidatando e também para conseguir as figurinhas, existe essa sensação realmente. Além disso, alguns episódios me chamam atenção. Por exemplo, eu vi muitas vezes o cara que não tinha aquele santinho comprava de quem tinha. Já teve outro que disse não ter tempo de fazer o álbum e foi atrás de adquirir um completo, já preenchido, e só fez isso junto a um terceiro por R$ 150”, aponta Miller.

A origem do termo ‘santinho’ data do século 16

A nomenclatura “santinho” para os papéis que identificam os candidatos com suas fotos e nomes data do século XVI, o primeiro da colonização portuguesa no Brasil. De acordo com o historiador Paulo Lopes Júnior, foi nesse tempo que foram criadas as câmaras municipais, onde só podiam se candidatar os chamados homens bons, evidenciando o patriarcalismo daquele tempo.

Naquela época, havia uma influência muito grande da religião em toda a conjuntura política e eram justamente nas igrejas que esses homens entregavam santinhos (propriamente ditos) com papéis neles amarrados contendo a sua identificação. Daí a origem do termo.

Ainda de acordo com o historiador, colecionar ou reunir santinhos é um costume tipicamente brasileiro. “Até hoje, temos grandes acervos pelo Brasil afora, com municípios e particulares que colecionam os santinhos como relíquias. Não há comprovação histórica, no entanto, da existência de prática semelhante em outros locais, por exemplo.

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