'Salário será dividido', diz Nevinha Valentim sobre candidatura coletiva

'Salário será dividido', diz Nevinha Valentim sobre candidatura coletiva

Candidata à prefeita de Natal pelo PSOL, Nevinha Valentim, integra o que o seu partido denominou de “candidatura coletiva”. Ela assegura que se for eleita, todas as decisões e condução da Prefeitura serão compartilhadas por outros três integrantes do PSOL.

“Ninguém é diferente. Somos coprefeitas e coprefeito. É o mesmo status e mesma função para pensar a cidade”, disse Nevinha, à rádio Jovem Pan News Natal, ao abrir a série de entrevistas com os candidatos à prefeitura. A ordem das entrevista foi definida por sorteio e prossegue nesta quarta-feira às 8h e às 10h.

Veja alguns dos principais trechos da entrevista de Nevinha.

Nevinha, a gente queria que você explicasse primeiramente isso. Como será, sendo eleita, a candidatura coletiva do PSOL? Como vai ser essa gestão?

Essa candidatura coletiva é uma provocação nossa. Nós resolvemos fazer uma candidatura coletiva para provocar a reflexão nas pessoas, nesse tipo de curiosidade. Isso porque entendemos que precisamos, no Brasil, de uma profunda reforma no sistema político porque o modelo que temos não atende, só tem gerado uma grande insatisfação. A prova disso é uma grande abstenção nas últimas eleições e nessa, com a pandemia, deverá ser muito maior. Então quando nos desafiamos a lançar esse coletivo foi pra isso, pra provocar essa reflexão. Não existem salvadores da pátria, seres iluminados com super poderes, varinha mágica ou que sacam projetos mirabolantes ali de uma prancheta do mágico, como é do gênio da lâmpada. Não existem. Nós queremos chamar atenção para isso, que a política é uma construção do dia a dia e só assim nós podemos encontrar soluções para a nossa cidade.

Como será administrar uma cidade com quatro pessoas tomando decisões? Na prática, como funcionaria essa gestão coletiva?

As pessoas sempre perguntam isso, perguntam até ‘ e o salário?’ Na verdade seremos três coprefeitas e um coprefeito, todos com a mesma função. Nós aprendemos desde cedo, quando crianças, que uma andorinha só não faz verão e ninguém decide sozinho, ninguém encaminha nada sozinho. Com quatro pessoas corre (sic) o risco de errar menos. Aí alguém diz assim: ‘Mas se alguém viaja? Se alguém adoece?’ Gente, hoje tem internet, hoje tem telefone. É possível conversar, não precisa estar todo mundo junto no mesmo momento, é preciso conversar e encaminhar as coisas e a gente sabe que na prática é assim. E também tem uma outra coisa que a gente gosta de chamar atenção, além de ser uma forma coletiva, é de ter uma função só, de termos o mesmo status. Ninguém é diferente. Somos coprefeitas e coprefeito. É o mesmo status e mesma função pra pensar a cidade.

E o salário?

O salário é dividido, como acontece nos mandatos coletivos que o PSOL já tem no legislativo tanto em São Paulo quanto em Pernambuco.

No seu plano de governo tem a previsão que metade dos cargos serão ocupado por mulheres, queríamos saber o porquê desta decisão…

Primeiro porque nós mulheres somos maioria da população. Nós somos mais de 53% da população aqui de Natal. Segundo porque é preciso mudar, romper a cultura que está cristalizada de diversas formas, como se só homens de determinadas extratos sociais fossem capazes de gerir a cidade e nós sabemos que não é assim. É por isso que é preciso criar essas condições para que as mulheres realmente assumam essas funções.

Já teria esses nomes, candidata? Pois a gente vê as dificuldades que os partidos tem até pra compor aquela cota que é exigida para a disputa das eleições, imagine para formar uma equipe de secretários que hoje tem um quadro de 21 secretarias no município. Vocês já tem os nomes da equipe?

Não temos os nomes. Esses nomes serão discutidos com os movimentos populares. Nossa proposta é de gestão compartilhada e de trazer esses segmentos historicamente excluídos para dentro da gestão. Então esses nomes serão discutidos com esses segmentos, além de priorizar servidoras de carreira. As mulheres que estão trabalhando no município e que conhecem como ninguém o funcionamento da cidade, da máquina administrativa, toda a legislação envolvida nas políticas públicas, essas pessoas precisam ascenderem a essa função. O que nós vemos, muitas vezes, a auto estima dos servidores lá embaixo porque eles nunca pensam que podem ocupar uma vaga dessa. O que nós vemos é sempre chegando alguém de fora, nomeado por um grupo político com determinado interesse, ocupa aquela secretaria e aquela criatura, que é um estranho no ninho, que cria aquele desconforto é quem vai precisar da assessoria dos servidores. Então é preciso colocar os servidores de carreira que realmente conhecem as cidades para assumirem as funções. Como proposta para o transporte público, a candidatura do PSOL propõe a criação de um fundo municipal destinado a investimentos na melhoria do sistema de transporte, redução de tarifas e cobertura de gratuidades, além de garantir o funcionamento do transporte público 24h em todas as zonas da cidade.

De onde virão os recursos para abastecerem esses fundos e se já foi estudado a viabilidade econômica de conseguir fazer com que essas linhas circulem 24h por toda a cidade?

Existem estudos, não nossos, não temos essa estruturas, da Universidade Federal junto com as secretarias que o custo mensal, por pessoa, é de 25 reais. Ou seja, uma família de quatro pessoas seria 100 reais por mês, então é perfeitamente possível encontrar solução pra isso. Agora, esse fundo, claro, ele precisa ser construído de forma paulatina, discutida e sendo construída conjuntamente com a sociedade, conversando e avaliando bem direitinho quais as fontes que poderão financiar. Não se trata de criar um outro imposto, mas sim encontrar como financiar isso. Porque as pessoas as vezes estranham, os meninos fizeram aquele movimento do passe livre em 2013, todos fomos testemunhas e as pessoas tomavam susto. Eu digo: ‘gente, porque que se acha absurdo? O transporte é um serviço tão essencial quanto saúde, quanto escola. Porque não é gratuito? Nós temos muitos serviços maravilhosos, o SUS é um exemplo. Durante a pandemia, ai de nós se não fosse o SUS. É importante saber que o SUS não é só aquele pronto socorro que tem problema, justamente por causa do sistema de transporte falho que acaba sendo impactado com muitos acidentes de moto. Mas, voltando, é preciso entender que o transporte não pode ser conduzido da lógica do lucro que é atualmente. Porque se o transporte é conduzido com uma empresa que tem que ter lucro para sobreviver, o que acontece? Na hora que tem um problema, como foi a questão salarial, a população fica refém disso. Então é preciso pensar o sistema em uma outra lógica.

Mas para fazer uma licitação, as empresas tem que ter um interesse econômico para que possam disputar, conseguir operacionalizar esse serviço. Então como fazer com que esse serviço seja atrativo, sem que haja uma perspectiva de lucro?

Exato, agora, vejamos… a prefeitura fez a licitação, deu deserta. Isso significa que continua sem um contrato para reger esse serviço. Significa que o ente público fica com um serviço essencial refém de um grupo econômico, então por isso que o sistema precisa mudar a lógica. Existem discussões muito aprofundadas sobre isso. Se as empresas não comparecem à licitação, a prefeitura pode perfeitamente dizer: ‘você tem um microônibus, você tem uma van, você quer fazer o transporte para o município? As regras são essas, estabelece um contrato com as regras e pode até baratear isso. Essa situação é perfeitamente possível.

Mas, candidata, para uma cidade com quase 900 mil habitantes, trabalhar um sistema como a senhora está colocando não seria um ato amadorístico?

Não necessariamente, Virgínia. É preciso pensar. Isso é uma coisa emergencial, agora é preciso pensar numa mobilidade sustentável. Natal precisaria ter um plano diretor de mobilidade em 2009. Na revisão do plano diretor em 2007 ficou estabelecido que em dois anos a cidade precisaria de um plano de mobilidade e vieram os recursos da Copa do Mundo. O que se fez? Nada. Nem se fez o plano diretor de mobilidade para discutir que cidade, que transporte, inclusive metropolitano, que não adianta pensar Natal sozinha, já que é conurbada com diversas cidades. Então não se fez essa discussão. Veio começar em 2015, começou e parou a discussão do plano diretor de mobilidade. E aí perdemos os recursos da Copa do Mundo tamanha… e o mais incrível disso é a Arena, tínhamos um estádio, um ginásio, uma creche e um espaço público perdemos por uma dívida de 20 anos. Então essa lógica que queremos reverter. É preciso pensar a cidade a partir de um outro ponto de vista. Quando a gente fala da contratação desses serviços é porque é possível fazer isso de forma emergencial, gerando emprego e renda para as pessoas. Mas é preciso ter a responsabilidade de pensar a cidade, pensar num transporte coletivo sustentável. A gente pode ter. Já se fez a discussão de bondes elétricos. Natal antigamente era uma cidade que tinha bonde elétrico e tudo se foi desmontado para se usar esse tipo de ônibus. Mas é preciso pensar a cidade e isso não se faz da noite pro dia. É terminar o plano diretor de mobilidade urbana e fazer realmente um transporte viável para a nossa cidade. Viável e sustentável, que não dependa de combustível fóssil, pois nós temos todas as fontes de energias limpas para usar neles. E pra fazer esse tipo de transporte, não são necessárias essas estruturas loucas que queriam fazer na Roberto Freire, fazer túnel. Não. Hoje em dia esse transporte é feito, e as vias de Natal comportam perfeitamente isso, com um ou dois trilhos onde aquele veículo desliza e pode conviver com bicicleta, com carros, com tudo que você quiser.

Você falou sobre o Plano Diretor de Natal e é algo que gostaríamos de tratar também. O que a Coletiva do Sol pensa de modificação no PDN, se há alguma modificação a ser discutida do que já vem sendo debatido nesse período…

Eu só gostaria de compartilhar que a questão do Plano diretor foi o que acendeu a nossa indignação e nos colocou para poder discutir. O processo foi tão excludente, autoritário e desrespeitoso que nos obrigou a tomar uma atitude de poder falar sobre isso, de ter voz, porque a gente não tinha voz. A prefeitura espalha aos quatro ventos que foi o processo mais participativo. Mas, na verdade, participaram 700 e poucas pessoas (sic). Natal tem 890 mil habitantes. Para ter 1% da população participando do processo, teríamos que ter pelo menos 8,9 mil pessoas, aproximadamente, participando. Então foi excludente, autoritário, desrespeitoso com a população, especialmente a da orla. E eu acho de um tremendo provincianismo brega querer botar prédio na praia.

Considerações finais

“Eu só gostaria de convidar as pessoas para nos seguirem nas redes sociais. Nos ajudar a construir conjuntamente uma cidade solidária, inclusiva, fraterna, sustentável, enfim, uma cidade do bem viver. Convido as pessoas a estudarem um pouquinho, pesquisarem o que é o bem viver”, disse Nevinha Valentim.

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